20 de Julho de 2026

Política

Após tarifaço dos EUA, Brasil monta agenda para consultar setores

Governo federal ouve setores afetados antes de definir medidas de reciprocidade e socorro a empresas
Ilustração, magnific.com
Ilustração, magnific.com
O governo federal estruturou uma agenda de consultas diretas aos setores econômicos afetados pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos. A informação foi apurada pela analista de Política da CNN Isabel Mega, ao Live CNN.

Segundo a analista, o objetivo é medir o impacto sobre empregos, contratos e produção antes de definir eventuais medidas de reciprocidade e o volume de recursos destinados ao socorro das empresas.

A iniciativa é conduzida pelo MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), ministério que assumiu a frente das negociações em conjunto com o Palácio do Planalto.

Cada setor afetado terá a oportunidade de se reunir com representantes do governo para apresentar os impactos específicos e indicar quais medidas considera necessárias para enfrentar as consequências das novas tarifas americanas de 25%.

Cautela como diretriz

A postura do governo brasileiro diante do tarifaço tem sido marcada pela cautela. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, ainda não há decisão tomada sobre a aplicação da Lei de Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional e que pode ser utilizada como ferramenta de resposta às tarifas norte-americanas.

Parte do governo avalia que a decisão sobre reciprocidade é de natureza governamental e deve ser tomada com base nesse mesmo princípio de cautela que tem orientado as tratativas desde o primeiro anúncio das tarifas.

Ao mesmo tempo, a preocupação com a responsabilidade fiscal é outro fator determinante. O governo sinalizou que não pretende deixar os setores à mercê das consequências, mas que qualquer medida de socorro precisa caber dentro do orçamento brasileiro. As soluções, portanto, devem ser personalizadas de acordo com a necessidade específica de cada setor.

Nova investigação pode ampliar tarifas

Além das tarifas de 25%, o Brasil enfrenta uma investigação paralela relacionada a suspeitas de trabalho forçado. A conclusão dessa investigação é esperada para a sexta-feira (24), e pode resultar em uma tarifa adicional de 12,5%.

O Brasil está sendo investigado junto com mais de 50 países, e as informações apuradas indicam que essa nova taxação seria cumulativa, podendo se somar à tarifa já anunciada para determinados setores.

O governo brasileiro demonstra pessimismo em relação ao desfecho dessa investigação, da mesma forma como já havia antecipado a inevitabilidade do tarifaço de 25%. A possibilidade de uma solução personalizada para o Brasil, diferente da aplicada aos demais países investigados, é considerada muito pequena.

Eleições e dimensão política

O cenário também apresenta uma camada política relevante. Fontes do governo brasileiro indicaram que não será possível negociar com os Estados Unidos antes das eleições de outubro, o que significa que qualquer avanço nas conversas e eventual recuo norte-americano sobre as taxações só poderia ser concretizado após o pleito.

O governo enxerga uma interferência clara dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro e avalia que o Brasil estaria sendo utilizado como exemplo do alcance do poder de intervenção norte-americano.

Nesse contexto, fontes ligadas à esquerda passaram a associar o tarifaço ao principal adversário nas eleições, Flávio Bolsonaro (PL), cunhando o termo 'tariflávio'. O discurso de soberania, que já havia rendido resultados políticos positivos na avaliação dos governistas no ano passado, deve ser retomado como instrumento político diante do atual cenário.
Fonte: CNN Brasil